sábado, 15 de setembro de 2012

domingo, 2 de setembro de 2012

Tenho passado os dias jogada no extremo da cama mais afastado da janela (re)lembrando impulsos menos meus, ou mais meus do que alguma vez imaginaria. Tem piada, reparei que as palavras enrolam-se todas em fios de pensamentos inacabados e de pouca qualidade, frágeis e quebradiços.Assim que os primeiros raios de sol invadem o meu cubículo, sem nenhum tipo de convite da minha parte, mesmo pensamento de sempre incha como uma esponja num balde de água : nunca fui tecelã e lá deixo que os pensamentos mantenham-se como quer a natureza, indecifráveis. Os músculos pedem arrego, as pálpebras desistem da sua função e se vão fechando à medida que lágrimas cansadas escorrem-me pelo rosto abaixo. O corpo tema em rebelar-se, a mente finge que está tudo bem- reconhecer-me torna-se algo doloroso;reinventar-me, impossível.
Marco no calendário o tempo que passou desde que tomei essa consciência e já lá vão dois meses. A rotina vem-se mantendo. Os dias revelam-se embassados, nublados, vãos, perigosos, anestesiantes,inertes, desnecessários, impessoalíssimos! A dormência é agoniante,dá-e a volta ao estômago, bate-me na cara e tema em permanecer.
Nunca brilhei, mas também é verdade que sempre fui muito tacanha, brilhar nunca foi meu objectivo. Hoje sinto que “ir durando” é o melhor plano.Sabem, a vida é só isso : nascemos, gastamos o tempo que leva para as nossas células envelhecerem e deteriorarem numa busca incessante pelo sentido da vida e morremos, só isso. Vá, assumo que esse espaço de tempo é muita coisa, talvez para os outros,quem saberá senão os próprios? Para mim esse intervalo entre a vida e a morte é a lacuna maior. Os livros e conhecimento profundo nunca me aliciaram, o romantismo e sentimentos nunca me arrancaram verdadeiros suspiros, as mudanças de fase da Lua nunca me inspiraram longos passeios pelo parque nem as sinfonias de Tchaikovsky servem-me de trilha sonora para a vida.Sim, sou insuportável.
Os meus gatafunhos andam por todos os lados (paredes, folhas, minha pele), com tinta de caneta ou mesmo com a ponta afiada de uma tesoura.”É arte!”, teimo sempre que uma alma menos humana me tenta traçar o perfil psicológico, esboço um sorriso despreocupado e consigo, embora nem sempre, até fazer brilhar os meus olhos! Muita gente crê que a linguagem corporal não pode ser controlada e muita gente adora sorrisos despreocupados,mesmo sabendo que não são assim tão verdadeiros. Por isso faço sempre o esforço de sorrir. Não escrevo sobre nada que valha a pena mencionar,só tomo notas pouco elaboradas de expressões que me vou lembrando de uma ou outra pessoa, coisas que ouço dos outros. Viver nos outros é mais fácil do que viver em nós porque a dor da consciência da nossa errancia nao nos toca; por outro lado, são os outros quem nos fazem ver que não passamos de ridículos seres. Uma pessoa perde dias pintando uma nova máscara com recursos estilísticos conjugados com um leve abanar de não, toque no cabelo, esta ou aquela roupa para ver o outro e saber que nem valia a pena (conforta sermos todos assim, não conforta?Ao menos o problema não está só em nós).
Apesar disso tudo queria ter uma espécie de refúgio, seria agradável, até. Um companheiro, creio, seria o ideal… Como devem imaginar pelo que contei até agora, não sou das pessoas mais desejáveis. É seguro dizer que a minha vida amorosa é um dos espectros do que eu sou, um reflexo de tudo que tenho sido e a leitura é bastante fácil, é patética. Então bebo.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Quando aparece uma pessoa que te faz mal, 9873687980909876 fazem-te bem.Viver é bom por isso.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Testamento

Manuel Bandeira

O que não tenho e desejo
É que melhor me enriquece.
Tive uns dinheiros — perdi-os...
Tive amores — esqueci-os.
Mas no maior desespero
Rezei: ganhei essa prece.

Vi terras da minha terra.
Por outras terras andei.
Mas o que ficou marcado
No meu olhar fatigado,
Foram terras que inventei.

Gosto muito de crianças:
Não tive um filho de meu.
Um filho!... Não foi de jeito...
Mas trago dentro do peito
Meu filho que não nasceu.

Criou-me, desde eu menino
Para arquiteto meu pai.
Foi-se-me um dia a saúde...
Fiz-me arquiteto? Não pude!
Sou poeta menor, perdoai!

Não faço versos de guerra.
Não faço porque não sei.
Mas num torpedo-suicida
Darei de bom grado a vida
Na luta em que não lutei!

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Intimidade
No coração da mina mais secreta,
No interior do fruto mais distante,
Na vibração da nota mais discreta,
No búzio mais convolto e ressoante,

Na camada mais densa da pintura,
Na veia que no corpo mais nos sonde,
Na palavra que diga mais brandura,
Na raiz que mais desce, mais esconde,

No silêncio mais fundo desta pausa,
Em que a vida se fez perenidade,
Procuro a tua mão, decifro a causa
De querer e não crer, final, intimidade.

José Saramago, in "Os Poemas Possíveis"

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio

Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
Que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que eu penso mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste, e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.

Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Por que metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade eu não sei.

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.